quinta-feira, 13 de abril de 2017

na casa de vovó
tinha uma cadeira que era
tão dela
que tinha a marca
da bunda na cadeira
do chinelo no chão encerado
das mãos no apoio escorregadio

tão dela
que tinha os dedos
pequenos e gordos
dos bruguelos da casa

tão dela
que tinha a marca
do cinto
que vovô batia nela
e rebatia
na cadeira

hoje, ninguém senta na cadeira
ou fala com vovó

escrevo
nesse
pe
da
ço
de parede
porque
folha
alguma
aguentaria
o vômito do jantar

domingo, 5 de março de 2017

Você deita pra dormir, se aconchega inteira, se encaixa e começa a ouvir, incessantemente, um mosquitinho no pé do ouvido.

Ainda de olhos fechados,
passa a mão
uma,
duas,
três,
quinze vezes
e não acerta.
Parece que é coisa da cabeça.

ZUM
ZUM
ZUM
Inferno.

Agora você já senta na cama de uma vez só, puta, porque o mosquito não te deixa em paz.

Quatro e cinqunta da manhã e ta desesperada balançando os braços pra todos os lados na esperança que algum movimento acerte o maldito.
Não adianta.
Acho que é coisa da cabeça mesmo, preciso voltar pra terapia.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Te escrevo de dentro do freezer
Porque não aguento
Os 20° do seu amor
Te escrevo daqui
Porque já derreti demais
Em fogo de palha
Te escrevo congelada
Porque o seu fogo
Nao me chama mais
Te escrevo presa
Porque sou ar
E não quero me queimar
Pra você viver
Mágica era quando os palhaços colocavam a moça bonita de maiô azul com bolinhas verdes dentro da caixa e passavam a serra. A moça, coitada, parecia que já não sentia mais dor, tava desesperada. Mas assim que a poeira da caixa abaixava, tava todo mundo de boca aberta: a moça tava inteirinha, sem nenhuma parte do corpo faltando, nem uma gotinha de sangue.
Também era o moço que conseguia sair de um tubo de água passado a chave, trancado com cadeado, com vinte mil litros de puro H2O, mãos algemadas e de venda nos olhos (!!!!!), tudo isso em meio minuto. Era muita coisa.
Hoje em dia, mágica mesmo é o que você faz comigo na cama.
Há cinco minutos eu estava na varanda do prédio da minha melhor amiga de infância. Onze anos de amizade mas não nos conhecemos.
Dou uma inclinada na beira, dou uma olhada no piso do térreo e em como eu ficaria bonita deitada de costas naquele chão. O gosto de ferro transbordava em cada poro da minha pele.
(a selvageria toma conta de mim)
A sensação de estar na ponta de um precipício me lembrou outros dias. No caso, ontem.
~ eu sou um monstro ~
(Desculpa, tava tocando Karina Buhr)
~ eu sou um mooooons ~
(A bateria desse cedê não aguentou)
Voltei pra sacada (que nunca foi varanda) e sentei no meio fio que aqueles três andares me davam.
Sorte ou azar, a sacada tinha tela de proteção para crianças.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A minha paranoia ta fantasiada de rato

O mesmo de quando eu te contei que vi um filhote correr do papagaio da sua casa e se esconder nos entulhos. Aquele que fui mostrar pra todo mundo mas ninguém viu. Eram todos eles que tentaram me pegar no sonho dessa noite.

No sonho e na vida, as paranoias me morderam e agora o veneno já corre no meu sangue.